Como decorar a tabuada: com calma, aos poucos e para sempre

Um adulto e uma criança jogam cartas com a tabuada na mesa da cozinha, com baralho, dados e uma grade desenhada à mão.
Neste texto
  1. O que significa “saber” a tabuada?
  2. Decorar a tabuada é ruim? A tabuada cantada funciona?
  3. Quantas contas é preciso decorar de verdade?
  4. A rotina de cinco minutos que funciona
  5. Truques que funcionam de verdade
  6. Jogos que decoram por você
  7. Por que o cronômetro sai caro?
  8. Quanto tempo leva para aprender a tabuada?
  9. Onde o nosso app entra, com honestidade

Resposta curta: a tabuada fica na memória mais depressa quando se faz menos de cada vez: alguns minutos quase todos os dias, poucos fatos por vez e jogos no lugar de corridas contra o relógio. E a montanha é menor do que parece: das cem casas de uma tabuada de 10 × 10, só umas vinte e uma exigem memória de verdade. O resto vem de graça com padrões que o seu filho ou a sua filha provavelmente já tem.

Fazemos um app de matemática para crianças e já vimos muitas delas passarem por rodadas de multiplicação. As que terminam confortáveis quase nunca são as que mais repetiram. São as que praticaram pouco, sempre e sem ninguém do lado com um cronômetro. Este guia é esse método, por escrito.

O que significa “saber” a tabuada?

Existe uma diferença entre calcular 6 × 7 e saber 6 × 7. Calcular (contar de 6 em 6, ou chegar lá a partir de 6 × 6 mais um 6) tem valor real, e é por onde toda criança começa. Saber é quando o 42 aparece em um segundo, sem esforço. A escola insiste nessa memória por um motivo prático: quando o resultado vem sozinho, a memória de trabalho da criança fica livre para o que é difícil de verdade, como um problema ou uma multiplicação com vários algarismos. A BNCC chama isso de fatos básicos da multiplicação, e é no 3º ano que ela pede que eles sirvam ao cálculo mental.

O caminho de calcular a saber não passa por mais pressão, e sim por mais recuperações. Cada vez que a criança tira um fato da própria cabeça, em vez de lê-lo numa tabela, esse fato fica um pouco mais permanente. Essa ideia, a de que perguntar funciona melhor do que mostrar, está por trás de tudo o que vem a seguir.

Decorar a tabuada é ruim? A tabuada cantada funciona?

Decorar não é palavrão. Muitos adultos no Brasil aprenderam com a tabuada cantada em coro e com a professora “tomando a tabuada” em voz alta, e lembram até hoje: “dois vezes um, dois; dois vezes dois, quatro…”. O ritmo fixa a sequência, e não há motivo para abandonar isso. O problema aparece em outro lugar: quem só aprendeu a música inteira, quando ouve 7 × 8 de repente, muitas vezes precisa começar em 7 × 1 e cantar até chegar.

A saída não é parar de cantar, e sim acrescentar o passo seguinte: perguntar a tabuada salteada. Primeiro a sequência, para ter o mapa; depois perguntas soltas, fora de ordem, para que cada fato possa ser tirado sozinho. E decorar funciona muito melhor quando a criança já entende o que é multiplicar, porque um fato esquecido pode ser reconstruído a partir de outro. Memória e compreensão não brigam: uma segura a outra.

Quantas contas é preciso decorar de verdade?

Uma tabuada de parede parece cem coisas para aprender, e por isso assusta tanto pendurada em cima da escrivaninha. Veja o que acontece quando você tira tudo o que a criança já ganha de graça:

Se você tira…Sobram
A tabuada inteira de 10 × 10100
A do 1: tudo vezes 1 dá o próprio número81
A do 10: é só pôr um zero no fim64
Metade da tabela: 3 × 8 é o mesmo fato que 8 × 336
A do 2: são dobros, e quase toda criança domina os dobros28
A do 5: contar de 5 em 5, 10, 15, 2021

Vinte e uma. Essa é a montanha inteira: um núcleo das tabuadas do 3, do 4, do 6, do 7, do 8 e do 9, e quase todos os fatos teimosos se juntam em volta de 6 × 7, 7 × 8 e 8 × 8. Vale a pena mostrar essa tabela para a criança, sentados juntos. “Você já sabe quase tudo” muda o clima do projeto inteiro antes de aprender um único fato novo.

A rotina de cinco minutos que funciona

Aqui está o método completo. Leva uns cinco minutos, funciona no café da manhã ou no carro e não precisa de nada além da sua voz.

  • Escolha três contas por semana. Não uma tabuada inteira: três fatos, num post-it colado na geladeira. Na semana seguinte, outros três.
  • Pergunte, não mostre. Em voz alta, com calma, deixando a resposta vir da memória. Puxar o fato da memória é o que faz efeito; reler a tabela, em comparação, quase não serve.
  • Misture com fatos antigos. Para cada fato novo, dois que a criança já sabe. Os acertos mantêm a brincadeira divertida, e voltar a eles é o que evita o esquecimento.
  • Deixe calcular quando der branco. “Não sei 6 × 7… mas 6 × 6 é 36, mais 6, 42.” Esse caminho não é cola: é o fato se construindo.
  • Pare enquanto ainda está divertido. Cinco minutos e acabou, de preferência com um acerto. Amanhã rende mais do que um tempo extra hoje.
Uma conta de multiplicação escrita à mão num post-it colado na porta da geladeira.
Três contas por semana, num post-it na geladeira. Na semana seguinte, outras três.

A ordem das tabuadas importa menos do que se pensa, mas existe uma sequência sensata: primeiro a do 2, a do 10 e a do 5; as difíceis, do 6 ao 9, por último. Contamos essa ordem, junto com o que a BNCC pede em cada ano, em com que idade aprender a tabuada.

Truques que funcionam de verdade

Truques de tabuada estão por toda parte, e a maioria é mais divertida de ver do que útil de ter. Quatro merecem o lugar:

  • A tabuada do 9 nos dedos. Com os dez dedos levantados, abaixe o dedo do número pelo qual você multiplica: para 9 × 4, o quarto dedo. Os dedos à esquerda do abaixado são dezenas (3) e os da direita, unidades (6): 36. Funciona para a tabuada do 9 inteira.
  • A soma dos algarismos do 9. Os algarismos de cada resultado da tabuada do 9 somam nove (18, 27, 36, 45…), e o algarismo das dezenas é um a menos do que o número pelo qual você multiplicou. As crianças adoram descobrir o padrão funcionando.
  • Cadeias de dobros. A tabuada do 4 é a do 2 dobrada; a do 8, a do 4 dobrada. Quem sabe dobrar chega a um fato esquecido da tabuada do 8 em dois passos tranquilos.
  • Os quadrados como pontos de apoio. 6 × 6, 7 × 7 e 8 × 8 formam uma diagonal de âncoras. A partir de 7 × 7 = 49, o temido 7 × 8 é só mais um 7.
Mãos de criança mostram um truque de contar com os dedos.
Abaixa-se um dedo: de um lado ficam as dezenas, do outro, as unidades. O truque da tabuada do 9 que serve de verdade.

Jogos que decoram por você

Com um baralho e um par de dados dá para cobrir quase tudo. Cada um destes jogos é prática de memória disfarçada:

  • Batalha da tabuada. Tire do baralho o valete, a dama e o rei (o ás vale 1) e divida as cartas. Cada um vira uma carta; quem disser primeiro o resultado da multiplicação leva as duas. Se a diferença de nível for grande, o adulto só responde a metade difícil da tabuada.
  • Duelo de dados. Jogam-se dois dados, multiplica-se e passa a vez. Com dois dados o máximo é 6 × 6, justamente a porta de entrada do núcleo difícil: perfeito para aquecer.
  • Jogo da memória da tabuada. Contas em umas cartas, resultados em outras; viradas para baixo, procuram-se os pares. Fazer as cartas juntos já vale uma rodada inteira de prática.
  • Multiplicação do dia a dia. Pernas de cadeira são a tabuada do 4, os dedos das mãos são a do 5 e a do 10, uma caixa com meia dúzia de ovos é a do 6. Um “quantas rodas têm aqueles três carros?” na rua também é uma recuperação.
  • O placar é dela, não seu. Deixe a criança anotar os pontos e tentar bater o próprio recorde de ontem: o dela, não o do irmão. O progresso que a criança sente como seu é a motivação que dura.
Cartões espalhados sobre uma mesa; uma mão de criança junta o cartão de uma multiplicação ao cartão com o resultado.
Jogo da memória da tabuada: contas em uns cartões, resultados em outros. Formar os pares é prática de memória disfarçada.

Por que o cronômetro sai caro?

Provas de tabuada contra o relógio parecem produtivas; têm cara de rigor. Mas, para muitas crianças, o relógio muda a tarefa: em vez de lembrar, elas estão administrando o medo. O grupo de educação matemática da Universidade Stanford, o youcubed (em inglês), defende há anos, no texto “Fluency Without Fear” (fluência sem medo), que a pressão do tempo está associada à ansiedade matemática em algumas crianças, e que a fluência nasce da compreensão e do uso, não de corridas.

A versão prática: a rapidez é o resultado de saber bem a tabuada, não o método para aprendê-la. Em casa, sem cronômetro e com as cartas na mão da criança. E se a escola faz arguição ou prova de tabuada com tempo, que a casa seja o contrapeso tranquilo, o único lugar onde 7 × 8 pode levar três segundos.

Quanto tempo leva para aprender a tabuada?

Meses, não dias, e isso é de propósito, não fracasso. A BNCC distribui o caminho por mais de um ano: no 2º ano, multiplicar por 2, 3, 4 e 5 como soma de parcelas iguais; no 3º, os fatos básicos da multiplicação para o cálculo mental; no 4º, a multiplicação com novos significados. Com a rotina de cinco minutos, a metade fácil da tabuada costuma ficar firme em poucas semanas, e o núcleo difícil de vinte e uma contas se assenta ao longo de um ou dois bimestres. Esquecer no caminho é normal: um fato aprendido no mês passado escapa e volta mais rápido a cada vez. Esse ciclo de esquecer e reaprender é, justamente, decorar.

Se está demorando mais, acrescentar minutos por dia raramente resolve: melhor lotes menores, mais dias e mais jogos. E se a criança continua angustiada ou empacada nos mesmos fatos por meses, a professora ou o professor já viu a turma inteira e é a primeira pessoa com quem conversar.

Onde o nosso app entra, com honestidade

Nosso app, 99 Math Animals (o app está em inglês, não em português), é mais forte no passo anterior ao decorar: a multiplicação como grupos iguais (quatro cestas de três maçãs), que é o que impede a tabuada de virar um muro de resultados sem sentido.

Ele tem rodadas de multiplicação que as crianças respondem escrevendo o número com o dedo, mas não é uma máquina de repassar tabuada a toda velocidade, e tudo neste guia funciona sem tela nenhuma. Se você está comparando apps para praticar, o nosso guia para escolher um app de matemática é rigoroso de propósito com apps como o nosso, e as brincadeiras dos anos anteriores, de onde este guia parte, estão em brincadeiras com números em casa.

Perguntas dos pais

Quanto tempo uma criança leva para aprender a tabuada?

Com alguns minutos de prática quase todos os dias, as tabuadas fáceis (do 1, do 2, do 5 e do 10) costumam ficar firmes em algumas semanas, e as do 6 ao 9 se assentam em um ou dois bimestres. A BNCC distribui a multiplicação entre o 2º e o 4º ano, então meses de progresso gradual são o normal, não lentidão.

Qual é o jeito mais rápido de decorar a tabuada?

A prática curta e diária de recuperação, ou seja, alguém pergunta e a criança responde de memória, ganha de qualquer atalho. Três fatos novos por semana misturados com outros já sabidos, dentro de jogos e não de provas. Truques como o dos dedos para a tabuada do 9 ajudam em tabuadas específicas, mas nenhum método pula a prática.

A tabuada cantada ajuda?

Ajuda: cantar fixa a sequência com ritmo, e muita gente aprendeu assim. Para que cada fato saia sozinho, sem cantar a tabuada desde o começo, vale acrescentar perguntas salteadas, um fato solto por vez.

Cartões ajudam a aprender a tabuada?

Ajudam, se usados com calma: poucos cartões, sem cronômetro, e a criança diz o resultado antes de virar. Funcionam porque obrigam a recuperar o fato. Deixam de funcionar quando viram prova de velocidade, que em muitas crianças acrescenta ansiedade em vez de fluência.

Leia também

← Todos os textos para pais