Como ensinar a criança a escrever os números

A mão de uma criança desenha um 3 grande com giz de cera azul num papel cor creme.
Neste texto
  1. Com que idade a criança escreve os números?
  2. E a letra cursiva, o caderno de caligrafia?
  3. Seu filho está pronto? Sinais de prontidão
  4. Por quais números começar?
  5. Como ensinar o traçado dos números (com o corpo todo)
  6. Se os números ainda não saem
  7. Escrever os números à mão ajuda mesmo?

Para ensinar uma criança a escrever os números, o que mais rende é ensinar o traçado antes do capricho: onde o lápis começa, para que lado vai e em que ordem. A letra bonita vem depois, e chega mais cedo quando o movimento por trás dela está certo.

Resposta curta: mostre como cada número se forma, pratique em momentos curtos e mantenha tudo com cara de brincadeira. A maioria das crianças escreve números reconhecíveis em algum momento entre os 4 e os 6 anos, e essa faixa é larga: se o seu filho ou a sua filha vai mais devagar ou mais depressa que um colega, isso, sozinho, diz muito pouco.

No 99 Math Animals (o app está em inglês, não em português), desenvolvemos o reconhecimento de escrita, a parte do app que lê o algarismo que a criança desenha com o dedo. Por isso já vimos muitas crianças de quatro anos desenharem, com toda a vontade, um 3, um 5 ou um 8. A lição mais clara: importa mais como o número é formado do que o quanto ele parece arrumado. Um 2 tremido feito com o movimento certo vira um 2 limpo com a prática. Um número caprichado, mas feito de baixo para cima ou montado com rabiscos soltos, costuma continuar difícil, porque o hábito por trás dele é desajeitado.

Com que idade a criança escreve os números?

Não existe uma idade única, então trate qualquer número que você ler (o nosso também) como uma referência aproximada, não como prazo. Muitas crianças fazem algarismos reconhecíveis entre os 4 e os 6 anos, muitas vezes depois de um tempo copiando. Coordenação motora fina, interesse e o quanto a criança já mexeu com lápis e giz mudam bastante esse calendário.

IdadeO que é comumNa escola
3 a 4 anosRabiscos com intenção e alguns “números” inventados.Educação Infantil: registrar quantidades do jeito da criança, com desenhos, marcas e, às vezes, números.
4 a 5 anosCopia alguns algarismos, sobretudo os retos (1, 4, 7); muitos saem espelhados.Pré-escola: relacionar números às quantidades; registrar do jeito da criança, sem cobrança de caligrafia.
5 a 6 anosQuase todos os algarismos de 0 a 9 ficam reconhecíveis; o 2 e o 8 demoram mais.Último ano da pré-escola e passagem para o 1º ano do Ensino Fundamental.
6 a 7 anosEscreve números de dois algarismos, cada vez mais rápido e mais limpo.1º ano: contar coleções de até 100 objetos e registrar o resultado com números.

Na Educação Infantil, a BNCC não fala em “escrever os números certinho”. O objetivo que mais se aproxima, para as crianças de 4 e 5 anos (código EI03ET07), é “relacionar números às suas respectivas quantidades e identificar o antes, o depois e o entre em uma sequência”. Entender a quantidade vem primeiro; a caligrafia não é cobrada. E a LDB diz que a avaliação na Educação Infantil é feita por acompanhamento e registro do desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental. Ou seja: uma criança da pré-escola que ainda não escreve bem os números não está atrasada em relação a nenhuma regra. É no 1º ano que a BNCC pede que a criança conte coleções de até 100 objetos e apresente o resultado “por registros verbais e simbólicos” (EF01MA04), e mesmo ali o caminho é gradual.

E a letra cursiva, o caderno de caligrafia?

É uma dúvida justa, porque a letra conta nas escolas brasileiras. Na maioria delas, a criança começa pela letra bastão (de forma, maiúscula) e a cursiva entra no 1º ou no 2º ano, conforme a proposta da escola; não há uma lei nacional que fixe esse momento. Os números, porém, não têm versão cursiva: o 5 que a criança aprende agora é o mesmo que ela vai escrever pelo resto da vida. É mais um motivo para acertar o traçado desde cedo.

Nada disso briga com o capricho que a escola pede no caderno; é uma questão de ordem. Primeiro a direção do traçado, depois o tamanho, por último a velocidade e o acabamento. Um 5 que sempre começa no mesmo lugar e faz sempre o mesmo caminho acaba ficando limpo e rápido. Um 5 que a criança “desenha” de um jeito diferente a cada vez pode sair bonito devagar, mas se desmancha no primeiro ditado de números feito com pressa.

Seu filho está pronto? Sinais de prontidão

Escrever números se apoia em habilidades anteriores. Você está procurando os alicerces, não a perfeição. Em geral, a criança está pronta para começar quando faz quase tudo isto, mesmo que pela metade:

  • Segura um giz de cera ou um lápis grosso e faz marcas de propósito, não só bate com ele no papel.
  • Copia linhas simples: uma vertical de cima para baixo, uma horizontal e uma diagonal.
  • Desenha um círculo, mesmo torto, e consegue fechá-lo.
  • Mostra interesse por letras ou números: aponta para eles ou pergunta o que está escrito.
  • Fica sentada alguns minutos concentrada num desenho pequeno.

Se linhas e círculos ainda são difíceis, é ali que vale colocar a energia primeiro: pintar, seguir labirintos, amassar massinha, enfiar contas num barbante, recortar. É o que a escola chama de atividades de coordenação motora, e elas preparam a mão antes de o lápis precisar fazer um 6. Pular para os números quando a mão ainda não está pronta costuma trazer frustração para os dois lados.

Por quais números começar?

O mais fácil é começar pelos números de linhas retas e deixar os curvos para depois. Uma ordem que funciona com muitas crianças:

  • Primeiro o 1: uma linha reta para baixo. É a vitória mais fácil e dá confiança.
  • Depois o 7 e o 4: quase só linhas retas e cantos.
  • Em seguida o 3, o 2 e o 5: entram as curvas e as mudanças de direção.
  • Por último o 6, o 9, o 8 e o 0: os de voltinha, que pedem mais controle para fechar bem.

O 8 é difícil de verdade, e é normal que seja o último a chegar e fique bagunçado por um tempo. O mesmo vale para o 2, que pede curvar, cruzar e seguir reto num movimento só. Se esses dois ficarem para trás, é o esperado. Números espelhados (um 3 ou um 5 virado para o lado errado) também são comuníssimos nessa idade e quase sempre somem sozinhos; explicamos isso em por que a criança escreve números espelhados.

Um detalhe que confunde muitas famílias: o 1 e o 7 não são escritos do mesmo jeito em todo lugar. Há quem faça o 1 com um tracinho de entrada no alto, há quem corte o 7 com uma barrinha no meio, e há quem faça os dois sem nada. Nenhuma forma é “a certa”. O que ajuda é usar em casa a mesma forma que a professora usa, para a criança não aprender duas versões ao mesmo tempo.

Como ensinar o traçado dos números (com o corpo todo)

O traçado de um número é o caminho que o lápis faz: onde começa, para onde vai e em que ordem. Ensinar esse caminho em voz alta e com o corpo todo funciona melhor do que entregar uma folha e torcer. Algumas coisas que costumam ajudar:

  • Grande primeiro. O número enorme numa folha grande, num quadro branco ou no ar, com o braço inteiro. Movimentos amplos são mais fáceis do que os finos, e depois passam para o tamanho do lápis.
  • Escrever no ar. A criança desenha o número no ar com o dedo indicador enquanto vocês dois dizem o movimento.
  • Uma frase para cada número. “O 1 desce reto”, “o 0 dá a volta inteira e fecha”. Dizer a frase enquanto desenha liga a palavra ao gesto.
  • Cobrir, pontilhado, sozinho. Um número inteiro para cobrir, depois pontilhado, depois bem clarinho e, no fim, um espaço vazio. O apoio sai aos poucos.
  • Com textura. Um dedo numa bandeja com sal ou areia, ou no espelho embaçado do banheiro depois do banho, deixa o movimento na memória.
  • Para alguma coisa de verdade. Numerar as páginas de um livrinho feito em casa ou anotar quantos biscoitos cada um vai ganhar rende mais do que o mesmo número repetido vinte vezes.
  • Depois, o quadriculado. Quando a criança já escreve sozinha, um caderno quadriculado de quadrados grandes (muitas escolas pedem um para matemática) é um guia natural: um número por quadradinho resolve o tamanho.
Com um movimento amplo do braço, a mão de uma criança desenha um 5 grande com caneta azul num quadro branco.
Grande primeiro, pequeno depois. Um 5 feito com o braço inteiro ensina a forma antes de a mão precisar segurar um lápis.
Uma folha de treino com números de contorno pontilhado que a mão de uma criança cobre a lápis, no meio do traço.
Cobrir, depois pontilhado, depois sozinho. A cada passada, sobra um pouco menos de guia.
O dedo de uma criança traça um 3 numa bandeja rasa com sal, sobre uma mesa de madeira.
Uma bandeja com sal transforma o treino num jogo de textura, e uma sacudida apaga tudo para a próxima tentativa.

Se os números ainda não saem

Primeiro, respire. “Ainda não” é o normal para muitas crianças de quatro e cinco anos, e apertar mais quase nunca ajuda. Antes de se preocupar, experimente isto:

  • Voltar um passo. Uma semana de linhas, círculos e formas, e depois de volta aos números.
  • Diminuir o alvo. Um número só, o mais fácil, até sair com gosto. Um 1 firme já é um avanço de verdade.
  • Olhar como ela segura o lápis e o material. Um lápis grosso e triangular é mais fácil para uma mão pequena. Se a pinça cansa ou dói, troque o material antes de aumentar a cobrança.
  • Separar as habilidades. De vez em quando, deixe a criança dizer a resposta em voz alta e escreva você, para que uma mão insegura não trave a matemática.
  • Baixar a pressão. Nada de caneta vermelha nem de “faz de novo”. Elogie o esforço e o movimento certo, não o capricho.

Para algumas crianças, o ato físico de escrever é muito trabalhoso mesmo quando elas entendem os números perfeitamente. Se essa distância for grande e não diminuir, vale conversar com a professora e com o pediatra. O pediatra pode encaminhar para um terapeuta ocupacional, que avalia a parte motora da escrita. Escrevemos mais sobre isso em letra feia ou disgrafia. Daí em diante, quem sabe são eles, não nós.

Escrever os números à mão ajuda mesmo?

Com honestidade: talvez, mas as evidências são mais frágeis do que as manchetes sugerem. Algumas pesquisas apontam vantagens de escrever à mão em vez de digitar para aprender e lembrar, e a ideia de que formar uma figura com a mão ajuda a aprendê-la é razoável e muito difundida. Só que quase todo esse trabalho trata de letras e leitura, não de algarismos, e os resultados são variados, não definitivos. Não sabemos ao certo quanto isso pesa para os números em particular.

Por isso não vamos dizer que escrever à mão vence a tela em matemática. O que vemos todos os dias é que formar um número com a mão obriga a criança a ir mais devagar e a prestar atenção na forma de um jeito que o simples reconhecimento não consegue. É um motivo modesto e sensato para incluir um pouco de escrita, junto com muita contagem, conversa e brincadeira com quantidades. Não é preciso escolher um lado.

Perguntas dos pais

Com que idade a criança deve saber escrever os números?

A maioria escreve números reconhecíveis entre os 4 e os 6 anos, mas isso varia muito e não existe uma idade única. Na Educação Infantil, a BNCC fala em relacionar números às quantidades, sem cobrar caligrafia; é no 1º ano que a criança passa a registrar quantidades com números de forma mais sistemática. Na dúvida, a professora é a melhor pessoa para perguntar.

Por quais números devo começar?

Pelos de linhas retas: primeiro o 1, depois o 7 e o 4. Em seguida os curvos (3, 2, 5) e, por último, os de voltinha (6, 9, 8, 0). O 8 e o 2 são difíceis de verdade e costumam chegar por último, o que é completamente normal.

É ruim se a criança escreve os números espelhados?

Não. Números espelhados, como um 3 ou um 5 virados para o lado errado, são muito comuns até mais ou menos os 7 anos e costumam sumir sozinhos à medida que a escrita fica automática. Se continuarem bem depois dessa idade, ou vierem junto com outras preocupações, converse com a professora.

O 7 é escrito cortado ou sem corte?

As duas formas estão corretas, e o mesmo vale para o 1 com ou sem tracinho no alto. O que ajuda a criança é usar em casa a mesma forma que a professora ensina, para não ter de aprender duas versões ao mesmo tempo.

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