Como ajudar a criança canhota a escrever os números

Neste texto
- Por que ser canhoto muda o jeito de ensinar os números?
- Os dois ajustes que ajudam de verdade
- Como montar um cantinho de escrita confortável
- Destro e canhoto: o que muda na posição
- Devo fazer a criança usar a mão direita?
- E o borrão na mão? E a letra cursiva?
- Isso tem a ver com escrever números espelhados?
Quase todo ensino de escrita pressupõe, sem dizer, uma criança destra, e uma criança canhota que segue a mesma posição de papel e a mesma pegada vai sofrer mais do que a escrita em si justificaria.
Resposta curta: os dois ajustes que mais importam são inclinar o papel para o outro lado (lado esquerdo mais alto, uns 30 graus) e segurar o lápis um pouco mais longe da ponta, para que a mão que escreve não tape a visão do que a própria criança está escrevendo.
Nenhum dos dois serve para corrigir a criança; servem para corrigir a posição do papel e do lápis. Este artigo reúne os ajustes que ajudam de verdade e a única coisa que nunca vale a pena fazer: tentar trocar a mão natural da criança.
Desenvolvemos o reconhecimento de escrita do 99 Math Animals (o app está em inglês, não em português), então olhamos o tempo todo para números formados com todo tipo de pegada e de ângulo. As crianças canhotas são uma minoria importante entre as que usam o app, e o que torna a escrita confortável para elas é diferente de verdade, não só o espelho do que se ensina aos destros. O que vem a seguir se apoia em orientações de terapia ocupacional, não em palpite.
Por que ser canhoto muda o jeito de ensinar os números?
Uma criança destra que escreve da esquerda para a direita puxa o lápis para longe do que já escreveu, então nada fica coberto e a mão nunca tapa a visão. Uma criança canhota empurra o lápis na mesma direção, da esquerda para a direita, o que significa que a mão passa naturalmente por cima dos números recém-escritos, a menos que a posição do papel compense isso. Essa única diferença mecânica explica a maior parte das dificuldades que as famílias notam: grafite borrado na lateral da mão, um punho torcido para cima e a criança se debruçando muito perto do papel para enxergar por trás da própria mão.

Os dois ajustes que ajudam de verdade
Inclinação do papel. Gire a folha para que o lado esquerdo fique mais alto, uns 30 graus no sentido horário a partir da posição reta; chegue perto de 45 graus se for isso que deixa aquela criança enxergar melhor o que escreve. É a inclinação oposta à que normalmente se ensina para os destros, e é a correção mais importante para o punho “em gancho” que algumas crianças canhotas desenvolvem para conseguir ver por trás da mão.
Distância da pegada. Peça que a criança segure o lápis a uns 2,5 a 4 centímetros da ponta, um pouco mais atrás do que a pegada típica de um destro. Um adesivo pequeno no ponto certo do lápis é um lembrete visual fácil se os dedos insistirem em escorregar para perto da ponta.
Como montar um cantinho de escrita confortável
- Incline o papel antes de começar, não quando a criança já empacou. Acerte o ângulo no início da sessão, em vez de corrigir no meio do caminho.
- Dê espaço para o cotovelo. Sente a criança canhota na ponta da mesa ou à esquerda de um irmão ou colega destro, para que dois cotovelos não disputem o mesmo espaço.
- Uma superfície um pouco elevada e inclinada ajuda. Uma prancheta apoiada, um fichário fechado ou uma rampa de escrita deixam o punho mais reto e reduzem o gancho que aparece quando a criança escreve com o papel baixo e plano.
- Observe o punho, não só os números. Um punho torcido em gancho geralmente indica que a inclinação do papel precisa de ajuste, não algo a corrigir só mudando a pegada.
- Escolha o caderno pensando na mão esquerda. A espiral do lado esquerdo machuca e atrapalha a mão canhota; caderno brochura ou com espiral em cima costuma ser mais confortável. Na hora de comprar o material escolar, vale também uma tesoura sem ponta própria para canhotos.

Destro e canhoto: o que muda na posição
| Posição típica de destro | Ajuste para canhoto | |
|---|---|---|
| Inclinação do papel | Levemente para a direita, uns 20 a 30 graus no sentido anti-horário | Levemente para a esquerda, uns 30 a 45 graus no sentido horário |
| Distância da pegada | Perto da ponta, uns 1,5 a 2 cm | Mais atrás, uns 2,5 a 4 cm, para a mão não tapar a visão |
| Postura do punho | Fica razoavelmente reto por natureza | Atenção ao punho torcido em gancho: geralmente é sinal de papel mal inclinado, não de pegada errada |
| Lugar ao lado de um colega | Tanto faz o lado | Melhor à esquerda de um colega destro, para os cotovelos não baterem |

Devo fazer a criança usar a mão direita?
Não. A preferência de mão se define cedo e não é algo para mudar, nem com jeitinho. Muitos avós brasileiros ainda contam que tiveram a mão esquerda “corrigida” na escola; hoje se sabe que não há nada a corrigir, e os ajustes acima existem justamente para que a criança canhota não precise brigar com a própria mão para escrever com conforto. Se a criança parece ter mais dificuldade do que a posição explica, isso é assunto para a professora ou para um terapeuta ocupacional, não um motivo para tentar trocar de mão.
Na escola, também vale uma conversa simples com a professora no começo do ano: pedir que a criança sente onde o cotovelo esquerdo tenha espaço e, nos anos em que a sala usa carteira com braço, que haja uma carteira para canhoto. São pedidos pequenos, e a maioria das escolas atende sem problema quando sabe.
E o borrão na mão? E a letra cursiva?
O lado da mão sujo de grafite é a marca registrada de quem escreve com a esquerda. Ele diminui muito com o papel bem inclinado, porque a mão passa a ficar abaixo da linha que está sendo escrita, e não por cima. O material também conta: o lápis grafite nº 2 que as escolas costumam pedir já borra pouco, enquanto os grafites muito macios, como 4B ou 6B, sujam mais. Com canetinha e giz de cera, vale esperar um instante antes de passar a mão por cima, ou começar o desenho pela direita.
Quando a cursiva chegar, no 1º ou no 2º ano conforme a escola, é comum a letra da criança canhota sair mais em pé, ou até levemente inclinada para trás, em vez de deitada para a direita como no modelo. Isso não é erro: o que importa é a letra ser legível e a mão não doer. Se a professora estranhar, uma conversa rápida explicando que a criança é canhota costuma resolver.
Isso tem a ver com escrever números espelhados?
Não diretamente. Os números espelhados são comuns tanto em crianças canhotas quanto em destras até por volta dos 7 anos, e ser canhoto, sozinho, não causa nem evita esse espelhamento. Os ajustes deste artigo são sobre conforto e legibilidade, não sobre inversões: uma criança canhota que espelha números está passando pela mesma fase típica que uma destra.
Perguntas dos pais
É normal a criança canhota escrever mais devagar?
Um pouco, principalmente antes de ajustar a inclinação do papel e a distância da pegada. Quando a posição do papel e do lápis leva em conta a mão esquerda, quase toda essa diferença desaparece: raramente é questão de capacidade, e sim de brigar com uma arrumação pensada para destros.
Devo fazer meu filho canhoto usar a mão direita?
Não. A preferência de mão se define cedo, e trocá-la não é recomendado. O objetivo é ajustar a posição (inclinação do papel, distância da pegada, lugar na mesa) à mão natural da criança, e não o contrário.
Qual a melhor inclinação do papel para canhoto?
Uns 30 graus no sentido horário a partir da posição reta, com o lado esquerdo mais alto: a inclinação oposta à que se ensina para destros. Algumas crianças enxergam melhor com o papel mais inclinado, até uns 45 graus; deixe o conforto da criança definir o ângulo exato.
Adaptadores de lápis para canhoto ajudam?
Podem ajudar, principalmente por incentivar a criança a segurar o lápis mais longe da ponta. Mas a inclinação do papel costuma importar mais do que o acessório: um bom ângulo com um lápis comum vence um adaptador especial com o papel reto e baixo.



