Como ensinar a criança a ver as horas: em ponto, e meia e quinze para

Ilustração: o braço de uma criança aponta para um grande relógio de ponteiros pendurado na parede de um quarto.
Neste texto
  1. O relógio de ponteiros ainda serve, se tudo é digital?
  2. Quando a escola ensina as horas, pela BNCC?
  3. Em que ordem é mais fácil ensinar?
  4. “Quinze para as 4” ou “3 e 45”? E o 16h do celular?
  5. Onde as crianças costumam travar?
  6. Um relógio com ponteiros que se mexem ajuda mesmo?
  7. Quanto tempo leva para aprender?
  8. Meu filho só lê a hora exata e a meia hora: está atrasado?

A maioria das crianças começa a ler o relógio de ponteiros entre os 5 e os 7 anos, quase sempre junto com o momento em que contar de 5 em 5 fica fácil, ou logo depois, porque é exatamente com essa habilidade que o mostrador funciona.

Resposta curta: ensina-se por etapas, não tudo de uma vez: primeiro a hora exata, depois a meia hora, depois os quartos, depois os saltos de cinco minutos e, por fim, os minutos exatos. De preferência com um relógio de verdade, ou um relógio de aprender com ponteiros que se mexem com a mão, e não com um cartaz. Como hoje o relógio digital está em toda parte, ler o de ponteiros já não se aprende sozinho: precisa ser ensinado de propósito.

Fazemos um app de contagem construído sobre a mesma base de contar de 5 em 5 em que o relógio se apoia, então é uma habilidade em que pensamos, embora o nosso app não a ensine diretamente. No Brasil há ainda um detalhe extra: a criança ouve “quatro da tarde” em casa e lê “16h” na agenda da escola e no celular. Abaixo, a ordem que funciona melhor, como juntar os dois relógios e onde as crianças costumam travar.

O relógio de ponteiros ainda serve, se tudo é digital?

Serve, e principalmente por um motivo que não tem a ver com relógios: ler um mostrador é uma habilidade espacial e matemática de verdade. Usa ângulos, metades e quartos, e contar de 5 em 5, tudo num olhar; não é um dado decorado, como o que aparece numa tela digital.

E ele continua aparecendo na vida real: o relógio de parede da sala de aula, o relógio de pulso, o da cozinha, o relógio antigo da casa dos avós. A diferença, sendo sinceros, é que hoje as crianças o veem de passagem muito menos do que uma geração criada sem relógios digitais, então é preciso ensiná-lo ativamente em vez de esperar que ele seja aprendido por osmose.

Quando a escola ensina as horas, pela BNCC?

  • 1º ano (6 a 7 anos): o tempo entra pelo dia a dia: relatar a sequência de acontecimentos de um dia usando, quando possível, os horários (EF01MA16) e reconhecer períodos do dia, dias da semana e meses do ano, com calendário (EF01MA17).
  • 2º ano (7 a 8 anos): medir a duração de um intervalo de tempo com relógio digital e registrar o horário de início e de fim (EF02MA19).
  • 3º ano (8 a 9 anos): ler horas em relógios digitais e analógicos e reconhecer a relação entre hora e minutos e entre minuto e segundos (EF03MA23), além de registrar o início, o fim e a duração de uma atividade (EF03MA22).

Ou seja: pela BNCC, o relógio de ponteiros só é cobrado no 3º ano, e o digital vem antes. Muitas escolas se adiantam com a hora exata e a meia hora no 1º ou no 2º ano, mas uma criança de seis anos que ainda não lê o relógio de ponteiros não está atrasada. Em casa dá para começar por volta dos 5 ou 6 anos, sem pressa nenhuma pelos minutos; o que a escola formaliza depois fica muito mais fácil para quem já brincou com um relógio.

Em que ordem é mais fácil ensinar?

Mais ou menos nesta sequência, em que cada etapa se apoia na anterior:

EtapaO que se vê no mostradorComo se dizApoia-se em
Hora exataO ponteiro grande aponta para cima, no 12“São 3 horas”, “3 em ponto”Reconhecer os números de 1 a 12
E meiaO ponteiro grande aponta para baixo, no 6“3 e meia”A ideia de metade
E quinzeO ponteiro grande aponta para o 3“3 e 15”Quartos, antes e depois
Quinze paraO ponteiro grande aponta para o 9“Quinze para as 4” ou “3 e 45”Olhar para a próxima hora
De cinco em cinco5, 10, 15… em volta do mostrador“3 e 5”, “3 e 20”, “vinte para as 4”Contar de 5 em 5

A última etapa é exatamente onde contar de 5 em 5 dá fruto: uma criança que já conta 5, 10, 15, 20 com blocos aplica a mesma habilidade aos números do mostrador sem aprender nada novo; só muda o lugar onde ela é usada.

Mãos de criança giram os ponteiros de um relógio de madeira de aprender as horas; o rosto e o tronco aparecem juntos na cena.
Girar os ponteiros e ver o das horas avançar devagar mostra o mecanismo de um jeito que nenhum cartaz consegue.

“Quinze para as 4” ou “3 e 45”? E o 16h do celular?

Depois da meia hora, o Brasil tem duas formas corretas de dizer a mesma coisa: “quinze para as 4”, “vinte para as 4” (a mais comum na fala) e “3 e 45”, “3 e 40” (a que o relógio digital mostra). Vale ensinar primeiro a que a família usa, e logo depois mostrar a outra, porque a criança vai ouvir as duas. Quem tem parentes em Portugal vai ouvir ainda “um quarto para as quatro” ou “quatro menos um quarto”; é o mesmo horário, dito à moda de lá.

Há também uma regra de concordância: é uma hora (no singular), mas são duas horas, são três horas… (no plural). Muita criança diz “são uma hora” por um tempo; é um erro lógico, porque ela está generalizando a regra, e se corrige ouvindo a forma certa.

E o detalhe bem brasileiro: na fala dizemos “quatro da tarde”, mas o celular, a TV, o horário do ônibus e a agenda da escola escrevem 16h, 16h30. A ponte é simples e cabe numa conversa: depois do meio-dia, o relógio de 24 horas continua contando, então 13h é uma da tarde, 14h é duas da tarde e assim por diante. Não é preciso cobrar isso cedo, só nomear quando aparecer; a BNCC junta os dois relógios no 3º ano.

Onde as crianças costumam travar?

A posição intermediária do ponteiro das horas confunde quase todo mundo no começo. Às 3h45, o ponteiro pequeno não está certinho no 3 nem no 4: está quase chegando ao 4, e ler isso direito (em vez de ficar com o número que parece mais perto) é a parte mais difícil da habilidade inteira. Vale apontar isso em voz alta e já esperar que demore mais para encaixar do que o ponteiro dos minutos.

Aqui o português ajuda: se às 3h45 você diz “quinze para as 4”, a criança já está olhando para o 4, que é justamente para onde o ponteiro pequeno aponta.

Um relógio com ponteiros que se mexem ajuda mesmo?

Ajuda mais do que um cartaz ou uma folha. Poder girar os ponteiros com a mão e ver a relação entre eles (uma volta inteira do ponteiro grande faz o pequeno andar um número) torna o mecanismo visível de um jeito que uma imagem parada não consegue. Um relógio de aprender barato, desses de mexer com a mão, vale mais do que um cartaz sozinho. E se você não quiser comprar nada, a nossa folha de recortar faz o mesmo com um colchete bailarina.

Close de um relógio de parede de ponteiros com o ponteiro dos minutos apontando para baixo.
A meia hora costuma ser a segunda etapa: o ponteiro grande para baixo é fácil de reconhecer antes de contar de cinco em cinco estar firme.

Quanto tempo leva para aprender?

Mais do que a maioria das outras habilidades com números deste site, e isso é normal: ver as horas empilha várias coisas ao mesmo tempo (reconhecer números, contar de 5 em 5, frações, orientação espacial), em vez de ser uma ideia só. O normal é que as etapas acima se desdobrem ao longo de meses, não de dias, e que a fluência plena (ler qualquer horário de relance) chegue bem depois da primeira explicação. Como a BNCC cobra o relógio analógico no 3º ano, essa fluência costuma se firmar entre os 8 e os 9 anos.

Numa sala de aula, uma criança aponta para o relógio de parede; o rosto e o braço aparecem juntos.
O relógio de parede da sala de aula costuma ser onde ler as horas ganha o primeiro treino repetido fora de casa.

Meu filho só lê a hora exata e a meia hora: está atrasado?

Não. Esse é exatamente o meio do caminho esperado na sequência acima, não uma parada que indique problema. As etapas de cinco em cinco e dos minutos exatos foram feitas para vir depois, e se apoiam em habilidades (contar de 5 em 5, principalmente) que muitas vezes ainda estão sendo construídas ao mesmo tempo. Com o dinheiro acontece o mesmo, porque ele se apoia nas mesmas contagens: contamos em como ensinar a criança a contar dinheiro.

Perguntas dos pais

Com que idade a criança aprende a ver as horas?

A maioria começa entre os 5 e os 7 anos, quando já conta de 5 em 5 e reconhece os números de 1 a 12. Pela BNCC, o relógio digital aparece no 2º ano e a leitura de horas no relógio de ponteiros é pedida no 3º ano (8 a 9 anos), embora muitas escolas comecem antes com a hora exata e a meia hora.

O certo é “quinze para as 4” ou “3 e 45”?

As duas formas estão certas. “Quinze para as 4” é a mais comum na fala do dia a dia no Brasil; “3 e 45” é como o relógio digital mostra. Vale ensinar primeiro a que a família usa e apresentar a outra logo depois. Em Portugal também se ouve “um quarto para as quatro”.

Como explicar para a criança que 16h são quatro da tarde?

Diga que, depois do meio-dia, o relógio de 24 horas continua contando: 13h é uma da tarde, 14h é duas da tarde, até 23h. Não precisa cobrar cedo; basta nomear quando aparecer na agenda, na TV ou no celular. A BNCC junta o relógio digital e o de ponteiros no 3º ano.

Por que o ponteiro das horas é tão difícil?

Porque ele só fica exatamente em cima de um número na hora exata. Às 3h45 ele aponta quase para o 4, não para o 3, e ler essa posição intermediária é a parte mais difícil de aprender as horas. Dizer “quinze para as 4” ajuda, porque já nomeia o 4.

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