Contar nos dedos é ruim?

Um sorriso e duas mãos contando nos dedos numa mesa, ao lado de alguns blocos de madeira com números.
Neste texto
  1. De onde vem a ideia de que contar nos dedos é ruim?
  2. O que as pesquisas dizem de fato?
  3. Então, quando vale olhar de novo?
  4. Como fazer dos dedos um degrau
  5. Isso vale também para a tabuada?
  6. Isso pode ser sinal de uma dificuldade maior?

Não, contar nos dedos não é ruim, e não existe idade em que a criança precise parar.

Resposta curta: os dedos são uma ferramenta de contagem normal e útil, não uma muleta a ser quebrada. Pesquisas com imagens do cérebro ligam a representação dos dedos ao senso numérico, e afastar a criança dos dedos antes de ela estar pronta costuma atrapalhar mais do que ajudar.

A única exceção real é estreita: uma criança que continua presa aos dedos para o mesmo fato pequeno e muito praticado, anos depois de os colegas terem seguido adiante, pode se beneficiar de um empurrãozinho em direção a outras estratégias, e não de ter os dedos tirados dela.

Fazemos um app de contagem para crianças pequenas, e os dedos aparecem o tempo todo no que observamos: as crianças levantam os dedos antes de desenhar um algarismo, recontam neles no meio da resposta e continuam usando os dedos numa idade em que alguns pais já começam a achar que isso “é coisa de bebê”. Abaixo está de onde vem a ideia de que “dedo é ruim”, o que as pesquisas dizem de fato e a única situação que merece uma segunda olhada, com calma.

De onde vem a ideia de que contar nos dedos é ruim?

A preocupação costuma vir de uma ideia que parece razoável, mas é incompleta: a de que contar nos dedos é uma muleta, e que a criança que se apoia nela nunca vai chegar ao cálculo mental de verdade. Muitos adultos ouviram na escola o famoso “faz de cabeça!” ou “tira a mão daí!”, e alguns professores e pais ainda desencorajam os dedos antes de a criança ter outra estratégia pronta para usar. A intenção é boa, querer que a criança avance, mas a suposição por trás, de que os dedos travam o progresso em vez de sustentá-lo, não tem bom apoio nas evidências.

Duas mãos de criança contam nos dedos sobre uma mesa, com a cabeça baixa de concentração.
Dedos para fora, cabeça baixa, resolvendo: essa é a cara de um senso numérico em construção.

O que as pesquisas dizem de fato?

O quadro que vem das ciências cognitivas aponta para o outro lado. Pesquisadores que estudam a chamada gnosia digital (a capacidade da criança de sentir e distinguir os próprios dedos sem olhar) encontraram uma relação entre ela e o desempenho posterior em matemática, forte o bastante para que alguns proponham exercícios de percepção dos dedos como apoio à matemática dos primeiros anos.

Estudos com imagens do cérebro também mostraram que áreas ligadas à representação dos dedos se ativam durante tarefas com números em adultos, inclusive quando eles fazem cálculos de cabeça, sem nenhum dedo à vista. A leitura que muitos pesquisadores fazem não é a de que os dedos sejam um atalho, e sim a de que a percepção dos dedos é um dos andaimes sobre os quais o senso numérico se constrói desde o início.

Jo Boaler, professora de educação matemática em Stanford, escreveu e falou bastante sobre essas evidências, defendendo que desencorajar os dedos nas crianças pequenas tira delas uma ferramenta real para construir o senso numérico, em vez de ajudá-las a largar uma muleta. Livros dela saíram no Brasil pela editora Penso, entre eles “Mentalidades matemáticas” e “Mentalidades matemáticas na educação infantil” (escrito com Jen Munson e Cathy Williams), este último com uma parte inteira dedicada a usar os dedos como números. Não somos pesquisadores, então preferimos indicar o trabalho dela e os estudos que ela cita a pedir que você confie em nós; mas a direção das evidências é bastante consistente.

A escola brasileira, no papel, vai na mesma direção. A BNCC pede que, no 1º ano, a criança construa os fatos básicos da adição (EF01MA06) e resolva problemas de juntar, acrescentar, separar e retirar com apoio de imagens ou material manipulável, “utilizando estratégias e formas de registro pessoais” (EF01MA08). Os dedos são o material manipulável que a criança sempre tem à mão.

IdadeUso típico dos dedosEtapa no Brasil
Por volta dos 3 a 4 anosOs dedos servem mais para mostrar um número (“tenho 4!”) do que para calcular; contar nos dedos ainda está se desenvolvendo.Creche e início da pré-escola
Por volta dos 5 a 6 anosOs dedos são muito usados para contar objetos e fazer somas pequenas, muitas vezes tocando um dedo de cada vez.Pré-escola e 1º ano
Por volta dos 6 a 8 anosOs dedos ajudam na adição e na subtração até 10 ou 20, muitas vezes junto com estratégias novas, como continuar contando a partir do número maior.1º e 2º ano: fatos básicos da adição, contas com até dois algarismos
Por volta dos 8 a 10 anosMuitas crianças usam menos os dedos para fatos bem conhecidos e mais para problemas novos ou maiores, à medida que a memória e outras estratégias assumem aos poucos.3º ao 5º ano: tabuada e cálculo mental
A mão de uma criança continua a contagem a partir dos cinco dedos levantados da outra mão.
Continuar a partir do cinco, e não do um: uma estratégia que convive bem com os dedos, em vez de substituí-los.

Então, quando vale olhar de novo?

Não para os dedos em si, mas para a falta de alternativas. É razoável apresentar outras estratégias, com delicadeza, se a criança usa os dedos como único método para os mesmos fatos pequenos e muito praticados (como 2 + 2) bem depois da idade em que a maioria dos colegas seguiu adiante, e não mostra nenhum interesse por caminhos mais rápidos. Mesmo assim, a solução não é tirar os dedos; é acrescentar opções ao lado deles, como contar de 2 em 2, usar os dobros ou perceber um padrão, para que a criança tenha mais de um caminho até a resposta.

Como fazer dos dedos um degrau

Alguns hábitos constroem estratégias novas ao lado dos dedos, em vez de tentar tirá-los antes de outra coisa estar pronta para ocupar o lugar:

  • Deixe os dedos serem o padrão enquanto forem úteis; não há prazo a cumprir.
  • Mostre outras estratégias junto com os dedos, em voz alta, e não no lugar deles: “eu sei que 5 mais 5 é 10, então 5 mais 6 é um a mais”.
  • Comente em voz alta quando seu filho ficar mais rápido ou pular uma etapa, em vez de pressioná-lo a pular antes da hora.
  • Construa a memória dos fatos aos poucos, com jogos, e não proibindo os dedos que trouxeram a criança até aqui.
  • Se a professora desencoraja os dedos e seu filho está sofrendo com isso, tudo bem conversar com ela: as evidências de fato favorecem deixar os dedos na caixa de ferramentas.
A mão de um adulto aponta uma reta numérica desenhada à mão enquanto, na mesma mesa, a mão de uma criança conta nos dedos.
Uma estratégia ao lado dos dedos, e não no lugar deles: a reta numérica e a mão levantada resolvendo juntas o mesmo problema.

Isso vale também para a tabuada?

Sim, a mesma lógica vale mais tarde. Contar nos dedos de 3 em 3 ou de 5 em 5 é um jeito totalmente razoável de chegar a um resultado da tabuada antes de ele estar decorado, e muitas famílias brasileiras conhecem até o truque da tabuada do 9 nos dedos. Afastar a criança disso antes de a memória estar firme só acrescenta pressão, sem acrescentar velocidade. Explicamos o jeito calmo, baseado em evidências, de construir a memória da multiplicação em como decorar a tabuada.

Isso pode ser sinal de uma dificuldade maior?

Raramente, e nunca só pelo uso dos dedos. Uma dificuldade geral e persistente com o senso numérico (não apenas a preferência pelos dedos, mas dificuldade real com quantidades: para comparar dois grupos ou para lembrar fatos básicos mesmo com muita prática) merece uma conversa com a professora, que pode comparar seu filho com a turma, ou com o pediatra. Se for preciso olhar mais de perto, eles podem indicar profissionais como psicopedagogo ou neuropsicólogo; falamos disso em dificuldade em matemática ou discalculia. Contar nos dedos, sozinho, em qualquer idade, não é esse sinal.

Perguntas dos pais

Com que idade a criança deve parar de contar nos dedos?

Não há idade definida, e não é preciso forçar. Muitas crianças usam os dedos durante os primeiros anos do Ensino Fundamental, tanto na adição quanto no começo da tabuada, e passam a depender menos deles à medida que a memória e outras estratégias se desenvolvem naturalmente.

Contar nos dedos quer dizer que a criança está atrasada em matemática?

Não. Contar nos dedos é uma ferramenta normal, usada por crianças, e até por adultos fazendo contas de cabeça, em qualquer nível. O que importa mais é se estratégias novas vão se juntando a ela com o tempo, e não se os dedos aparecem ou não.

A professora deve proibir a criança de contar nos dedos?

As pesquisas sobre a percepção dos dedos sugerem que eles ajudam o senso numérico, em vez de travá-lo, por isso a maioria dos pesquisadores do tema recomenda permitir os dedos, principalmente antes de a criança ter outra estratégia confiável. A própria BNCC valoriza estratégias pessoais e material manipulável no 1º ano.

Contar nos dedos atrapalha a tabuada?

Não. Contar nos dedos de 3 em 3 ou de 5 em 5 é uma ponte razoável até um resultado da tabuada antes de ele estar decorado. Vale acrescentar outras estratégias com o tempo, mas não há necessidade de tirar os dedos antes de a criança estar pronta.

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